segunda-feira, 29 de abril de 2013


As ruas do meu bairro estão todas cinzentas, o dia misturou-se com a noite porque o sol não apareceu hoje, no céu só é possível enxergar grandes e carregadas nuvens. O clima é muito úmido e gelado; minhas unhas ficaram roxas porque o metal do guidão da bicicleta esfriou.
Pedalo acompanhando o ritmo da tristeza que se alojou dentro da minha mente, ela canta suavemente, meu coração bate lento e parece comprimir meu peito... As lágrimas surgem no canto dos meus olhos enquanto pedalo em frente a tua casa.
Agora a casa me parece velha, os portões estão escancarados, pintura desbotada, plantas mortas; decido entrar.
Apoio a bicicleta ao lado da parede de modo silencioso, olho para a cozinha onde costumávamos jogar conversa fora e rir... Ríamos muito. Com o olhar perdido observo o resto da casa e decido caminhar até a porta do seu quarto. Vou devagar, tenho medo do que possa encontrar ao abrir a porta, mas a minha vontade de olhar para o cômodo e reavivar nossas lembranças é muito mais forte. Ao abrir encontro-te há mil anos atrás e lá está você... Perdido na tarde de domingo em que nos separamos.

sábado, 16 de março de 2013

Buying my own stairway to heaven


Como passam lentas as tardes nessa cidade pequena que vivo, é tão melancólica, sem vida, sem cor... Faz-me forçar a mente para conseguir imaginar como é que as pessoas sãs conseguem sobreviver a imenso tédio, parece simplesmente impossível manter-me dentro de um quarto! Não o conseguiria fazê-lo nem uma tarde sequer, é como se o quarto desmoronasse sob mim, as paredes definhassem, quadros derretessem, janela caísse, porta se mesclasse com as paredes e finalmente se tornasse uma prisão. Minha prisão particular.

‘’Preciso sair daqui! Preciso ir ao encontro de Branca, preciso dela, preciso muito. ’’

Enfio um cigarro entre os lábios rapidamente, quase que o engulo, acendo-o e saio correndo de casa. Saio mal arrumada, o vento batendo no rosto e a sensação de mal estar é absurda. Entretanto, quando chego à casa de Branca, oh...
Sumo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Paranoid


Tudo começa quando me sento no banco do vagão de um metrô vazio, estou completamente sozinha, tão sozinha que os únicos sons que posso ouvir são os dos trilhos e o do meu coração. Coração que está incerto, inseguro e muito amedrontado. Mexo as mãos silenciosamente imaginando poder estar sendo vista por algum fantasma do túnel negro, tento reconhecer pelo tato o maço de cigarros em meio aos milhares de objetos escondidos dentro da minha bolsa, mas, o nervosismo é tanto que eu falho, as mãos suadas voltam ao meu colo e se entrelaçam inquietas.
Agora ouço uma outra coisa, agora posso ouvir as vozes impacientes que vêm de dentro da minha mente dizendo: ‘’Você está louca?’’, ‘’Pegue logo um cigarro’’, ‘’De quem é que você está se escondendo?Ande logo!’’. Era a voz da minha própria consciência que agora havia sido possibilitada de revoltar-se contra a sua dona.
Entretanto, a curta viagem já estava no seu fim; precisei respirar profundamente para conseguir me levantar e adentrar a estação escura do fim do mundo. Fitei-me rapidamente por alguns instantes no vidro da janela do metrô, Branca estava escapulindo de mim, tirei meus olhos do reflexo e num gesto muito rápido juntei minhas coisas para poder sair dali.
Eu estava pronta, pronta para mais, jogada na estação do fim do mundo com os fantasmas do túnel negro. 

quinta-feira, 7 de março de 2013


Ah, quer saber? Vá se foder, eu não preciso de você. Você precisou de mim uma, duas, três, quatro, cinco, um milhão de vezes e eu sempre estive lá! Olho com olho ou até mesmo ouvido grudado no telefone. Não sou mais boneca dos seus caprichos, tenho vida própria e eu quero que saibas bem disso. Cansei de ter que ser a estaca mais forte, eu quero poder inchar por causa da chuva e secar-me ao sol na manhã seguinte; quero poder ser infestada por cupins e depois ser restaurada pelas firmes mãos de um marceneiro; quero enfim poder ter a certeza de que você estará ali uma, duas, três, quatro, cinco, um milhão de vezes pra mim... Assim como eu sempre estive pra você!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Branca...


É inevitável, mas, ainda penso todos os dias sobre ela. Lembro-me exatamente da primeira vez que estivemos juntas, meu cérebro entrou em pane, desligou-se, minha cabeça esvaziou-se e a excitação pelo novo me preencheu por inteira. Senti-me rejuvenescida, como se por algumas horas ela simplesmente pudesse me reiniciar, redimensionar a minha noção de espaço e tempo. Foi quase como estar no espaço, na imensa escuridão, sentar descalça numa estrela e balançar os pés para fora dela.
Era a solução para todos os meus problemas, vê-la era como ter minha própria válvula de escape, poder simplesmente fugir de tudo e todos apenas com ela, sem precisar de terceiros.
A reinvenção de mim mesma, do meu próprio eu; era uma viagem intensa cheia de sons, odores, risos e expressões desconhecidas. Podia ser tudo, nada, louca ou sã.
É inevitável não pensar nela vez ou outra... Branca fez-me acreditar que a viagem para o precipício pode ser formidável.